O Último Azul (2025)

Demorei a entender que “O Último Azul” é uma distopia. Também, pudera, o Brasil oferece tantas bizarrices à sua população, que, nos primeiros cinco minutos, tudo parecia normal. Mas não é bem assim.

Premiado com o Urso de Prata no Festival de Berlim deste ano e com dois prêmios no Festival de Cinema de Guadalajara, finalmente o longa dirigido por Gabriel Mascaro chega às telas nacionais.

O filme traz a história de Tereza, que vive sozinha em uma pequena cidade na região amazônica e trabalha em um abatedouro de jacarés. Compulsoriamente, nesse Brasil distópico, as pessoas perdem a guarda das suas próprias vidas aos 75 anos. Tereza, que já chegou aos 77, da noite para o dia perde o emprego, sua casa e passa a ter uma tutora: sua filha, que será responsável por todos os seus atos a partir dali. E, pior, a essa altura da vida, como tantos outros da sua idade, Tereza passará a viver em uma colônia para os mais velhos, já que eles precisam desocupar o espaço das suas casas e os seus empregos para os mais jovens.

Mas claro que Tereza não está nem um pouco interessada em abrir mão da sua vida e da sua independência. Ela está forte, lúcida e não quer perder o controle de sua própria existência.

A beleza do filme de Mascaro está em Tereza: uma personagem da luta contra o etarismo e contra a maneira como desvalorizamos e subjugamos os idosos. Tereza se rebela, foge, vira clandestina em seu próprio território. Vamos navegando com ela pelos caudalosos rios da floresta, em aventuras que chegaram a me lembrar um pouco Flow, a bela animação vencedora do Oscar 2024. Mas, diferentemente de Flow, o mundo de Tereza não está acabando, ele está só começando.

Torcemos por “Tereza em fuga” em todos os momentos: quando entra no barco de Cadu, quando tenta voar com Ludemir e, principalmente, quando se arrisca com Roberta. Um filme adulto, que olha para o futuro e trata com dignidade um assunto tão essencial para os dias de hoje.

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