O mais recente hype em torno de “Jeanne Dielman, 23, quai du Commerce, 1080 Bruxelles” aconteceu há três anos, quando o filme desbancou Hitchcock em uma eleição da revista britânica Sight & Sound para escolher o melhor filme da história.
Neste ano, quando completa 50 anos, a Filmicca (@filmicca) relançou a obra em sua plataforma – e foi por lá que assisti. Conhecia a fama, mas ainda não tinha tido coragem de encarar a longuíssima película, com mais de três horas de duração.
O filme acompanha, ao longo de três dias, a rotina de Jeanne, uma viúva (interpretada por Delphine Seyrig – musa da nouvelle vague), que cuida da casa e do filho jovem e, nas tardes vazias e tediosas em que está sozinha, se prostitui. Em 1975, foi mal recebido pela crítica, que considerou a direção de Chantal Akerman um projeto estético e conceitual.
E o que mudou na percepção de lá para cá, a ponto de lhe render o título de melhor filme da história? ”Jeanne Dielman” tem uma filmagem atual e hipnótica, com longos planos fixos em que a câmera observa a personagem se mover sistematicamente pela casa. É de ficar colado na tela: ao estilo reality show, acompanhamos cenas banais do cotidiano e tentamos compor uma narrativa, uma lógica, um conflito que não estão dados. Passada a primeira hora, já entendemos a rotina da personagem e começamos a reparar em detalhes – como ela dobra o pijama do filho, como prepara o café, e se tomará ou não banho de novo após receber um cliente. É magnético.
Além disso, o filme toca em uma grande questão: o lugar da mulher na sociedade e o que lhe resta após a morte do marido. São pouquíssimos diálogos, mas profundos o suficiente para revelar o porquê daquela vida. A obra é uma virada de chave para o cinema pela estética e pelo estilo que emprega; para a carreira de Delphine, que aos 42 anos se posicionava como feminista; e para Chantal, que levou esse debate às telas nos anos 1970, quando tinha apenas 25 anos.


